É um momento determinante em todo o filme "Matrix": Morpheus (Laurence Fishburn) encontra-se com Neo (Keanu Reaves)
para lhe explicar que o mundo no qual vive não é o mundo real e
verdadeiro. Os humanos são meros escravos de um poderoso sistema de
computadores designado Matrix que controla a mente humana. Morpheus
(não é em vão este nome, dado que é o Deus dos Sonhos na mitologia
grega) dá a possibilidade a Neo de escolher entre tomar a pílula azul ou
a vermelha. Tomando a azul, Neo voltará à sua ilusória e superficial
vida; se optar pela pílula vermelha, conhecerá a verdade que está por
detrás do mundo que julga ser real. Neo arrisca e opta pela pílula
vermelha, conhecendo, finalmente, a complexa verdade por detrás do seu
mundo de aparências. A partir deste simples enunciado entre a dicotomia
do mundo real e do mundo ilusório ou aparente, levantam-se muitas
leituras filosóficas e religiosas. Estas pílulas representam, também,
uma metáfora da condição humana: o homem que se resigna de forma
dogmática e aceita passivamente tudo o que existe à sua volta ou o homem
que deseja libertar-se e conhecer a verdade absoluta das coisas e o
acesso ao conhecimento?
Esta dualidade de universos apresentado em "Matrix" vai busca inspiração a vários quadrantes: a história "Alice no País das Maravilhas", na qual Alice tem de escolher entre beber o líquido azul ou vermelho; a "Alegoria da Caverna" de Platão,
em que se prova que os homens podem viver no mundo das sombras julgando
que representam a realidade das coisas; e a teoria pós-moderna do
ensaísta e filósofo francês Jean Beaudrillard, a qual estipula que vivemos num mundo de "Simulacros e Simulação". Os próprios irmãos Wachwoski, realizadores da trilogia "Matrix", confessaram a grande influência do filósofo francês na conceptualização do filme.
Perante
isto, a questão que coloco a mim mesmo (e aos leitores) é esta: e se
este mundo, de uma forma ou de outra, não é mais do que uma espécie de
"Matrix" global e eu tivesse que optar por ingerir a pílula azul ou a
vermelha, qual escolheria? Óbvio: a vermelha.

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